O Paradoxo da Marvel: Obras-Primas Esquecidas e o Peso do Legado

Os projetos de TV do Universo Cinematográfico Marvel no Disney+ acabaram ganhando uma fama meio indigesta em certas bolhas do fandom. Tem quem deteste a sensação de que as séries viraram um “dever de casa” obrigatório para entender o próximo filme. Outros torcem o nariz porque acham que o estúdio joga seguro demais, sem ousar muito na criatividade. Mas a real, nua e crua, é que grande parte do público largou mão simplesmente porque as produções deixaram a desejar. Para cada acerto fora da curva como WandaVision, a gente engoliu fracassos de orçamento bilionário, como Invasão Secreta, ou missões secundárias que não agregaram em nada, tipo Echo. Dá até para questionar se a Marvel perdeu a mão de vez ou se os showrunners estão só batendo ponto.

Porém, recentemente, rolou uma ironia fortíssima. O finale da segunda temporada de Daredevil: Born Again (intitulado “The Southern Cross”) foi um deleite para os fãs e cravou a nota 9,5 no IMDB. Isso empata direto com “Glorious Purpose”, o primeiro episódio de Loki, no topo do pódio de melhores episódios da TV da Marvel. A trama entregou o Matt Murdock testemunhando contra o Wilson Fisk no tribunal e, no ápice da ação, o advogado botou os chifrinhos para jogo em um team-up sensacional com a Jessica Jones, descendo a porrada nas forças do Rei do Crime. Em tempos normais, isso seria a prova de que a Marvel aprendeu com os tropeços passados e sacou o que o público quer ver. O problema é que aprenderam essa lição tarde demais, e a audiência do Demolidor despencou vertiginosamente de uma temporada para a outra.

Os números são um verdadeiro banho de água fria. Born Again acumulou 652 milhões de minutos assistidos nas suas primeiras cinco semanas. Pode parecer muito, mas representa uma queda brutal de mais de 54% em relação à primeira temporada, que registrou 1,44 bilhão de minutos no mesmo intervalo de tempo. A coisa fica ainda mais feia quando comparada com Loki, que puxou absurdos 731 milhões de minutos vistos apenas na sua semana de estreia. Ou seja, a série do anti-herói do Tom Hiddleston reuniu um público consideravelmente maior para um único episódio do que o Demolidor conseguiu em mais da metade da sua segunda temporada.

Isso acende um alerta vermelho na firma e sugere algo assustador: para quem já pulou fora do barco do MCU, a qualidade não é mais o xis da questão. Dias atrás, o co-CEO da DC Studios, Peter Safran, mandou a real dizendo que não existe fadiga de super-heróis, mas sim uma “fadiga de filmes medíocres”. Foi uma alfinetada óbvia na concorrência, sugerindo que a Marvel perde grana por empurrar conteúdo meia-boca. Por mais que isso seja verdade em alguns casos, o sumiço do público logo na temporada de Born Again que entregou o episódio mais aclamado dos últimos anos prova que qualidade, hoje, não garante play.

As teorias para esse êxodo são muitas. Alguns desistiram pelo ritmo meio arrastado da série e pela repetição do eterno gato e rato entre Fisk e Murdock. Outros estão só esperando a temporada acabar para maratonar tudo. Tem também a parcela da audiência que simplesmente cancelou a assinatura porque a casa do Mickey resolveu subir os preços justo na véspera da estreia. No fim das contas, a saturação do gênero é palpável. O excesso de conteúdo fez com que ficasse exaustivo para o marvete médio se importar com qualquer novidade, por melhor que seja o roteiro.

Essa desconexão atual entre a qualidade da obra e a recepção do público soa ainda mais doída quando analisamos o peso narrativo que o MCU tem em mãos. Quando o estúdio quer, ele consegue escavar mitologias riquíssimas para fisgar a audiência. Basta lembrar do resgate brilhante de figuras complexas, como ocorreu com o Barão Zemo em Falcão e o Soldado Invernal. Lá trás, na sua estreia em Capitão América: Guerra Civil, Helmut Zemo conseguiu a proeza tática de rachar os Vingadores de dentro para fora. Depois, retornou em Falcão e o Soldado Invernal vestindo sua clássica persona dos quadrinhos, e a bagagem de décadas que sustenta esse antagonista exemplifica perfeitamente a profundidade que o universo cinematográfico pode acessar.

Sangue, Ciência e a Máscara Colada

A parada do Barão Zemo nas HQs é que o título não pertence a um cara só; é uma herança aristocrática germânica passada de pai para filho desde o século XV. O primeiro grandão a ostentar o manto e fazer estrago nas páginas (uma criação de Stan Lee e Jack Kirby, com estreia em Avengers #4) foi Heinrich Zemo, o 12º Barão. Inteligente, sádico e com o bolso cheio de grana da família, ele lutou ao lado da Hidra e foi o principal cientista do Partido Nazista durante a Segunda Guerra Mundial, criando diversas armas de destruição em massa para Hitler. Tinha uma relação de parceria e forte rivalidade com o Caveira Vermelha e foi o responsável direto por “matar” Bucky Barnes e transformar Steve Rogers em picolé por décadas.

Heinrich também tinha família — a esposa Hilda e o filho Helmut —, mas a ruína de sua sanidade começou num embate direto com o Capitão América. Durante a luta, o herói arremessou o escudo num tanque de vidro lotado de “Composto X”, uma arma química absurdamente resistente que a medicina da época jamais conseguiria dissolver. Zemo estava colado no recipiente e o líquido espirrou por todo o seu rosto, grudando a máscara roxa à sua pele permanentemente. Ele não perdeu os sentidos nem a capacidade de respirar, mas comer virou um inferno, passando a depender de alimentação intravenosa. O incidente fritou de vez o cérebro do nazista. Crente que havia matado o Capitão América, ele largou a mulher e o filho e se refugiou na América do Sul por anos.

Quando descobriu que os Vingadores haviam descongelado seu arqui-inimigo vinte anos no futuro, o ódio reacendeu. A batalha final entre os dois foi brutal: Zemo — que naquela altura bizarramente conseguia disparar raios solares pelos olhos — acabou sendo cego pelo herói. O vilão morreu no combate e, numa demonstração de respeito por um adversário implacável, o Sentinela da Liberdade o enterrou com as próprias mãos.

O Legado de Vingança do 13º Barão

A morte de Heinrich ativou uma bomba-relógio chamada Helmut Zemo. Assumindo a posição de 13º Barão da linhagem, ele elaborou um plano para esmagar o Capitão América, adotando num primeiro momento o codinome de “Fênix”. O karma, no entanto, é implacável: ao confrontar Steve Rogers, o filho cometeu um erro quase poético e caiu de cabeça num tanque fervente do mesmíssimo “Composto X”, saindo de lá tão desfigurado quanto o pai.

Helmut era um gênio tático e sacou rápido que peitar o Capitão e os Vingadores no mano a mano seria suicídio. Foi aí que ele teve a brilhante ideia de montar o seu próprio bonde de super-humanos para bater de frente com a elite heroica. Nasciam ali os Mestres do Terror, uma equipe que juntou figurões como Cavaleiro Negro, Blecaute, Tubarão Tigre e Gárgula Cinzenta. Eles quase trucidaram os heróis no aclamado arco Sob Ataque e continuaram sendo uma dor de cabeça constante no Universo Marvel em suas variadas formações.

Toda essa trajetória interligada — seja do Zemo que já foi herói, agente da Hidra e Mestre do Terror, ou do Demolidor arrastando a cara dos capangas do Fisk no asfalto — mostra que o poço de boas histórias da Marvel é praticamente infinito. O problema real é que, hoje, ter um material base formidável e entregar uma adaptação nota 9,5 já não basta para prender o público no sofá. Resta saber se o estúdio vai encontrar uma forma de desatar esse nó antes que os espectadores resolvam, de forma definitiva, ir assistir outra coisa.