A Odisseia de Nolan e a sombra de Oppenheimer: o que esperar de 2026

O ano de 2026 já desponta como um marco decisivo para a indústria cinematográfica, com as expectativas voltadas quase inteiramente para a próxima grande empreitada de Christopher Nolan: “A Odisseia”. Durante a transmissão da final da AFC, um dos eventos de maior audiência da TV americana, os fãs da NFL foram surpreendidos com o primeiro vislumbre dessa produção. O teaser revelou não apenas a escala épica habitual do diretor, mas também uma adição inesperada ao elenco que gerou burburinho imediato nas redes sociais e na imprensa especializada.

Travis Scott e o elenco estelar

Embora o filme conte com nomes de peso como Matt Damon, Tom Holland e Zendaya, foi a presença do rapper Travis Scott que roubou a cena no comercial de um minuto. Longe de ser apenas uma colaboração musical — como ocorreu em “Tenet”, onde Scott compôs a faixa “The Plan” e foi elogiado por Nolan por sua contribuição “profunda” —, o músico agora assume um papel de atuação. As imagens mostram Scott em uma cena intensa, golpeando um cajado no chão e proferindo um discurso que demanda a atenção de todos ao seu redor.

A escolha de Nolan, conhecido por suas preferências ecléticas que vão de dramas históricos à franquia “Velozes e Furiosos”, pegou muitos de surpresa, mas sinaliza a continuidade de sua aposta em grandes partituras musicais e efeitos práticos bombásticos. A controvérsia sobre as liberdades criativas na adaptação do poema grego antigo já existe, mas parece apenas aumentar o apetite do público por essa interpretação grandiosa.

O legado deixado por Oppenheimer

Christopher Nolan não é do tipo que descansa sobre os louros da vitória. Seu retorno aos cinemas carrega a responsabilidade de suceder “Oppenheimer”, drama histórico que se provou um feito técnico e narrativo sem precedentes. A obra anterior não apenas arrecadou impressionantes US$ 975 milhões nas bilheterias globais, como garantiu ao cineasta seu primeiro Oscar, consolidando seu status em Hollywood. Para muitos, a grandiosidade prometida em “A Odisseia” é uma resposta direta ao sucesso massivo de sua biografia sobre o físico J. Robert Oppenheimer.

A história real por trás do sucesso anterior

Para compreender o patamar de exigência que recai sobre o novo filme, é fundamental revisitar a profundidade com que Nolan tratou seu projeto anterior. O longa retratou com fidelidade a trajetória complexa de Julius Robert Oppenheimer, nascido em Nova York em 1904, filho de imigrantes judeus alemães que prosperaram no setor têxtil. O filme capturou desde sua formação acadêmica brilhante em Harvard e sua passagem pela Europa — em Cambridge e Göttingen, onde formulou conceitos vitais como a abordagem de Born-Oppenheimer — até sua ascensão como uma das mentes mais brilhantes de sua geração.

A narrativa de Nolan destacou, sobretudo, o papel de liderança de Oppenheimer no Projeto Manhattan. A partir de 1942, o cientista coordenou o laboratório de Los Alamos, um esforço conjunto entre EUA, Reino Unido e Canadá que culminou no teste Trinity em julho de 1945. A postura de Oppenheimer foi crucial para o desenvolvimento da bomba atômica, mas o filme não se esquivou de mostrar o peso dessa criação. Após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o “pai da bomba” foi consumido pelo remorso, tornando-se um defensor ferrenho do controle de armas nucleares. Essa postura pacifista eventualmente o colocou na mira do governo americano durante a caça aos comunistas, custando-lhe sua influência política, embora ele tenha continuado a lecionar em Princeton até sua morte, em 1967. É com esse histórico de profundidade narrativa e sucesso comercial que Nolan agora tenta reescrever a mitologia grega para as plateias modernas.